quinta-feira, 6 de janeiro de 2005

sleeping in my car...


nokia by thumbelina no meio da autoestrada...
é uma canção foleira dos Roxette... mas é uma frase que se aplica a uma forma de vida. um pouco a minha.
este carro conhece-me há tantos anos... fui buscá-lo bebé à oficina, tinha uns poucos meses de carta (sim, ainda se vivia bem, nesta família. era suposto ser o carro da minha mãe mas ela tem medo de conduzir... temos pena ;)
é bordeaux, ou vermelho vinho, ou lá o que quiserem chamar. lembro-me que não simpatizei logo com a cor. it's something that started growing on me (porque é que há expressões que só saem em inglês?). acabei por em certas alturas usar as unhas da cor da pintura...
lembro-me que, no primeiro dia, tive medo de o conduzir. medo de o estragar.
depois tornou-se o meu melhor amigo. ganhou logo um diminutivo, que nessas coisas sou terrivelmente foleira. é o jippy... e nos dias maus é o cabrão do carro. fofinho, não?
foi comigo tirar o curso, dando um fim aos dias em que tinha de acordar às 5 da manhã para chegar às 8 à faculdade (para jogar matrecos, mas isso fica para outro post...)
tornou-se o táxi de toda a gente com quem antes me encontrava no metro do Campo Grande às 7 da manhã. passámos a ir todos de popó. de cuzinho tremido, como dizia a minha avó. e passámos a passear nele. e a fazer raves nele, no jardim da faculdade (lembras-te, V?).
a partir daí, fui 'boleieira' oficial de meio mundo. nele conheci Lisboa, Portugal, arredores...
este carro assistiu a todos os episódios da minha vida. nele tive ataques de choro convulsivo de que ninguém soube. nele tive o primeiro ataque de ansiedade. nele tive ataques de riso. nele estudei. nele bati texto. nele me deixaram bilhetes, e recados, e flores(!), e mensagens desenhadas nas janelas. nele me deixaram marcas de cigarro. nele andaram afixados todos os cartazes de peças em que entrei. nele andaram a balançar baldes de cola para andar a colar cartazes por Lisboa inteira. nele abri prendas. nele dormi. nele discuti. nele beijei. nele fui ombro. nele precisei de um ombro. nele cantei em plenos pulmões. nele dancei. nele carreguei cenários. nele andaram bolos e frangos assados. nele tive dois despistes. nele me maquilhei, penteei, mudei de roupa. nele andou areia e neve. nele ultrapassei os limites de velocidade. nele apanhei multas de estacionamento. nele apanhei desilusões. nele apanhei chuvadas, trovoadas, choques eléctricos, escaldões à camionista. nele aterrei noutros mundos. nele vi luas, estrelas, entardeceres e amanheceres. sozinha. acompanhada. nele trouxe a casa de uma amiga. nele trouxe turcos do aeroporto. nele trouxe a minha avó ao teatro. nele anda o meu perfume, o canivete suíço, a última multa, as chaves da casa da minha avó, o chapéu de chuva, o boné, a tenda, a agenda, os cds, a máquina fotográfica, livros... a minha casa. e os cheiros dos que fazem o meu mundinho.
nele sou independente. nele muitas vezes me apeteceu ignorar a tabuleta que indicava a saída da auto-estrada para minha casa e seguir. só seguir.
são quase 180.000kms. são 7 anos.

nokia by thumbelina
é muita música.

1 impressões digitais:

ana disse...

eu tive um carro assim. já só resta a matricula, escondida no meu quarto, porque um puto bebedo se despistou e mo desfez a um domingo, às 8 horas da manhã. faz na próxima semana um ano que morreu, e eu continuo a ter ganas de matar o idiota que ainda por cima fugiu.
nota-se que ainda tenho raiva? era o meu carro, tão parecido comigo...