sexta-feira, 24 de fevereiro de 2006

pontes


foto roubada a nelson d'aires

o tempo foi perdido, não por nós mas por tudo o que nos fez sermos quem éramos quando nos cruzámos. a desorientação no espaço é inevitável para quem não é mais que um fragmento de si, sem compasso de relógio, sem desejos nem carne. sem sangue. de sabores dormentes. quando o tempo nos toma as rédeas, fica-se suspenso. tudo muda à volta. permanecemos assim, sem o norte. mas sabia onde ficavam os pedaços dos meus dias úteis. e mostrei-te. nessa ponte encontraste a passagem. ali. e descobri que aquela passagem era minha também. escorremos como rio violento, quebrante, fugimos do tempo escondidos na humidade dos peixes. acampámos no limbo do destino, espetámos-lhe as estacas com a volúpia da vingança nos dedos, enquanto o tempo nos procurava. esquivámo-nos em gritos insanos para dentro um do outro. e o sabor acordou. o da tua carne na minha língua, o da tua vida no meu peito, o do meu peito nas tuas mãos, o dos meus gemidos nos teus cabelos brancos. o do sonho nos nossos dias. o amor, enfim o amor. depois não. depois o tempo voltou. depois foi quando os nossos corpos se separaram* e parámos de novo, cada um nos seus pontos recortados de alguma agenda amarrotada por um ser sem nome nem caneta para nos unir. porque não somos mais do que nos deixamos ser. o encontro nem sempre une. permanecemos quedos, querendo o tempo a passar até sermos de novo pedaços de pó. nessa liberdade soltei-me ao vento e à água ao teu encontro. dei-te a minha morte. no fim, fui tua de novo, meu amor.

não sei porquê. mas tive a certeza. este tipo de certezas só se tem uma vez na vida.


*a naifa | três minutos antes de a maré encher |

6 impressões digitais:

espanta_espirtos disse...

palavras para quê.

amiga disse...

despedimo-nos sem sequer nos
conhecermos.


Só para não dizer o mesmo que o espanta...palavras e mais palavras, tuas, sempre.

A Naifa continua a brilhar no mais escuro do ser.
O filme, confesso envergonhada, que ainda não vi.

O que eu levo comigo?
Tudo, mas principalmente:
"porque não somos mais do que nos deixamos ser"

macaso disse...

Pedi emprestado este nome a uma amiga. Nunca me fez tanto sentido como agora. Ela não se importa e eu espero que tu gostes (estou a referir-me a comentário anterior).

pinky disse...

liiiiiiiiindo..... :)

nuno albuquerque vaz disse...

irrepetivél...

colher de chá disse...

Por que será que consegues descrever aquilo que sinto exactamente como a cabeça quer e o coração pede? Por que será que só tu o consegues? Como fazes? Estou paralisada. Nem sei pensar, fico estática à espera das respostas, à espera desta sensãção de novo. Á espera do amor, do encontro e da separação, do desejo e da saudade, da surpresa e da emoção.
Fico com as lágrimas trancadas e o coração a querer explodir.
Por que só tu consegues isto?
és A Polegar, claro.