segunda-feira, 13 de fevereiro de 2006

rugas da parede



ouve-se no silêncio um pequeno percalço. um suspiro. não tem dono, apenas ao ar onde regressa pertence. o suspiro das paredes. são antigas e foram ali deixadas quietas, em abandono descrente. estranho santuário do pó dos dias, sem sombra que lhes alimentasse a alma para além da sombra que lhes contava da mudança das horas. ali ficaram, guardando as fotos velhas e as células mortas e os bichos do papel. velhas e desencontradas de sentido, a tristeza fizera-as perder a luz e a firmeza, despedaçando-se em pequenos pós brancos e beges e azuis no chão sem pés.
uma lágrima caiu pé-ante-pé, sem aviso, em grito sufocado. não compreenderam, as paredes, o que lhes quereria a lágrima. timidamente taparam as faces, deixando no entanto uma frincha entre os dedos para espreitar a lágrima, que lhes escorria e se enrolava com o pó em pigmento egípcio, cada vez mais espessa, misturada na humidade e nos rolos de cotão. deslizava silenciosa, furtiva, absorvendo em si o negrume dos anos, acariciando-lhes as rugas. arredondava-se a mancha que engrandecia. e as paredes coraram, pincelando naquela estranha sombra húmida um laivo de rubor em que de um prisma se encontraria todas as cores e cor nenhuma.

4 impressões digitais:

espanta_espiritos disse...

as marcas do tempo são resultado da erosão que o contacto provoca.
há alegrias.
há tristezas.
há vida.

nuno albuquerque vaz disse...

tantos brancos de cal.do tecto chovem letras e palavras.e as paredes riem.como é bom ouvir.nos de volta no eco das paredes.grita.mostra.me a tua lingua.

pinky disse...

lindoooooooo!
espero que estejas melhor, jokas

polegar disse...

espanta: é vida. que brota da parede. que se prende na parede. a parede é pele, também.

nuno vaz: lindo. obrigada.

pinky: eeer... tou melhorzinha mas ainda não totalmente. em três dias foram todos os sintomas da gripe, em separado, unidos apenas pelo... hum... corrimento nasal... deu-me para ouvidos entupidos, febre, ataques de asma-relâmpago, espirros, dores de garganta... eu sei lá. humpf, vamos lá ver se me livro desta depressa, hem?... :) beijocas!