domingo, 16 de março de 2008

desacordo ortográfico

a mulher olhava-me de esguelha. de cada vez que eu abria a boca, a minha visão periférica denunciava um movimento amarelo da cabeça da senhora na minha direcção. não sei se interessadíssima na veemência da minha posição, defendida em voz alta apesar de a rapariga que nos servia o chá ser brasileira, ou se incomodada por o meu discurso ser inflamado e pelo facto de eu esbracejar, estando certamente a distraí-la da apatia do seu próprio acompanhante.
só sei é que quando peguei no jornal que estava disponível para consulta no bar, procurava o suplemento de cultura para saber em que sala e horário encontrar um determinado filme. mas o dito suplemento estava a descansar na mesa da tal loira, aberto e negligenciado, enquanto ela folheava uma revista de decoração, e eu fiquei-me pelos cabeçalhos do Expresso. como não tenho conseguido acompanhar a actualidade, pude finalmente pôr-me a par das novidades acerca do tal acordo ortográfico. e portanto a culpa de a estar a distrair é totalmente dela...

lamento, não concordo. não consigo conceber que neste país se autorize que um fato seja um facto. não percebo como é que agora uma mulher sensualmente umedece os lábios [olha, o sublinhado do corrector ortográfico]. não concebo que o hífen vá dar uma curva nas palavras compostas em que o segundo elemento comece por "r" ou "s". e no "há-de" também... que as consoantes mudas desapareçam do mapa. pior, faz-me uma comichão desgraçada que palavras como crêem e vêem fiquem carecas, ou seja, sem o acento circunflexo. porque só de olhar para elas sem chapéu, ouço-me a dizê-las mal, qualquer coisas como vâiem... ou crâiem...

a justificação de que assim se unifica a aprendizagem da língua em todas as comunidades lusófonas não me satisfaz. a coisa dos 50 milhões e a globalização e mais não sei quê. não engulo. as raízes da língua e da sua música são privilégios de cada povo. cada comunidade tem as suas adaptações fonéticas e isso obviamente tem de se reflectir ortograficamente. não sou purista, acho que se devem abraçar neologismos, estrangeirismos... ainda hoje me custa escrever instintivamente "sítio de internet" ou "mesa digitalizadora", prefiro os velhinhos site e scanner... não entro na guerra do "o português nasceu em Portugal, por isso eles que se adaptem a nós". acho é que tudo tem de ter o seu espaço, o seu respeito, e não temos de nos vergar uns aos outros. até agora temo-nos entendido lindamente assim. tentando ser racional, olho para os números. mas ainda assim, a alteração de 1,4% das palavras do português de Portugal parece-me um assassinato. como percebo que assim o pareça a alguns brasileiros, na sua alteração de 0,45% das palavras. ui, provavelmente a expressão "português de Portugal" vai passar a ser politicamente incorrecta. porque denota diferenciação. e eu pergunto-me: porque é que temos de ser todos iguais? ser diferente, ser único, é assim tão mau?

ah, e se até agora encontrar livros técnicos em português de cá era complicado, temei caros tradutores! o desemprego vai adensar-se. porque se dantes só haviam traduções brasileiras e podíamos queixar-nos e esperar que abrissem os nichos de mercado, agora foi-se toda a réstia de esperança.

o meu brio e o meu esforço por escrever como deve ser passarão a ser ridículos. vence a geração educada com revistas da Mónica e do Cascão e que tinham as cruzes vermelhas nos testes de português por causa dos então chamados brasileirismos. só me vem à cabeça a imagem da minha querida Professora Fernanda e o seu apagador que nunca me cruzou as palmas das mãos nos ditados nem nas composições. se neste momento ainda exercesse, palpita-me que andaria de apagador em riste a tentar acertar em muitas cabecinhas pensadoras governativas deste país...

não sei, se calhar habituo-me, mas por enquanto é uma dor cá dentro... a língua é a minha ferramenta de trabalho, um dos meus veículos de expressão. e a comunicação é a minha vida. ler e escrever são as minhas viagens. gosto tanto de palavras, dos seus sons, das suas manhas, de compreender os seus arabescos, que pensar que terei de desaprender nem que seja 1,4% delas me dá um aperto na alma.

enfim...

lamento então informar os caros seguidores d'A palavra deste Blog, que provavelmente terei muitas dificuldades em adaptar-me a este novo sentido das coisas. que este estaminé, até 2014 pelo menos, passará a ter, pelos vistos, muitos erros de português...

4 impressões digitais:

espantaespiritos disse...

não sendo um "perfeito" utilizador da língua portuguesa (bem longe disso infelizmente...) a coisa também não me cai bem.
as normalizações são sempre um disparate e uma forma de perder detalhes interessantes que dão vontade de descobrir.
a diferença é interessante, provoca curiosidade, estimula o cérebro.
a normalização torna todo o mundo num grande "macdonads"... e isso é triste.

além de deixar um grande e desagradável cheiro a batatas fritas...

elisa disse...

Parece-me totalmente desnecessário este acordo e altamente artificial. Ora a evolução da língua tem muito mais de natural do que de artificial, não?

intruso disse...

eheh
abençoados hífens

:)

MPR disse...

Em frente moça, até porque é ridículo a imposição por parte de altas hierarquias de um modo de escrever. A evolução fonética e linguística deve ser um processo quase orgânico, natural, pelo dia a dia dos escribas de um país. Não faz sentido que seja algo imposto apenas porque sim, porque os brasileiros de fato não querem assumir o facto de nós escrevermos de facto as palavras facto e fato de forma diferente.