segunda-feira, 17 de abril de 2006

tango


[ms]

sustentar na ponta dos pés descalços o peso do corpo. endireitar o pescoço e alongar as costas, os braços. sentir as rugas da carpete poeirenta e o balanço das notas que, invisiveis, perfumam o ar e lhe revoltam os cabelos. primeiro lentamente, num aquecer ruborizado que dá a liquidez do olhar. depois perder o tino e as angústias pelo suor. quebrar os passos sem lhes querer sentido. ondular sem pudores de se tocar. forçar colinas e ondas num terramoto agridoce.
permitir ao fogo que aquece as coxas redimir-se em golpes de tango.
sem pouso definido, a pele vai sentindo a surpresa de cada passo cadenciado, partindo de pontos fluentes e confluentes de uma parede ou do chão. olhos fechados na tontura violenta. sentir as vergastadas com que as madeixas húmidas comprimem os ombros.
estacar numa náusea de prazer ofegante.
e ao fundo o olhar brilhante, voraz, sendento. a figura que se agiganta num paso doble, arrastando-se, impelindo-se pela cintura. o aproximar ardente de olhos fixos que despem e lambem. o envolver das mãos no ponto onde a cintura requebra e o calor dos peitos apertados. o possuir do corpo latejante. o bater dos corações que se compassa. a proximidade perigosa do hálito quente que absorve. e o largar voo perdido nas mãos de um anjo ardente. que despede o corpo controlado dos contornos conhecidos e o arredonda e fixa ao sabor dos seus intentos. ao sabor do que quer ver. o arquear da coluna e o arquejo do peito. silhueta fina e frágil com golpes de chicote, empurra o vento na outra que, possante, o engole. a perna que se descobre longa, orgulhosa sobe ao limite do imaginário. enrola-se com vigor obsceno, descendo, descendo. o suor que escorre sem perdão e que penetra nos lábios entreabertos, o sal misturado de duas vontades selvagens. a luta sem guerra dos corpos.

ali, naquele palco imaginado, hão-de ferver as suas peles, hão-de roçar-se lascivamente até ao limite do silêncio, hão-de gemer as dores e os prazeres confinados, hão-de depois, muito depois, abrandar os ritmos latentes, descansando-os num passo lânguido e esvoaçante, precioso e suave como a primeira passa num cigarro.

4 impressões digitais:

casual disse...

Pode parecer conveniente,mas sempre quis aprender tango.Talvez a dança que mais me identifique,pela sensualidade e cumplicidade crescente entre os dois ao longo dos andamentos do mestre Piazzola.Estás a aprender?Se precisares de par...Quién sabe se no haremos un workshop en los Barrios de Buenos?

Obrigado pela visita;)

polegar disse...

casual: de facto, o tango seduz-me, como quase todas as danças. é quente, físico, sensual. e ao som de Piazzola fica apenas divinal. não, não estou a aprender. se um dia puder fazê-lo aviso-te ;) hasta, señor

espanta_espiritos disse...

arte de corpo e de alma, em que uma vez aprendida a técnica, entra a estética dos corpos e corações.
hei-de aprender um dia a técnica para poder entregar o corpo e o coração a esta arte.

de preferência ao som do "trio esquina" com o corto maltese a espreitar.

elisa disse...

Não sei dançar o tango. E depois de ler o teu texto, é com alguma tristeza que o digo. Pois parece que estou a desperdiçar intensidade!
Beijinhos