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a porta do lado



entrava de manhã e ao meu "bom dia" já tinha a madalena e a italiana à minha frente na mesa. o rapaz do antiquário já lá estava, na mesa ao pé da porta, virado para a rua, com silêncio e um cigarro. eu chegava normalmente à hora em que acabavam de preparar os almoços e as sobremesas e se sentavam na mesa do fundo com as suas canecas e o jornal ou o catálogo da perfumaria. tomavam, por assim dizer, o pequeno-almoço comigo. muita conversa trocada. viravam as cadeiras na direcção da minha mesa e perguntavam opiniões. sobre tudo e sobre nada. por vezes estavam mais silenciosos e eu então prendia os cantos do meu livro no pires do bolo e saboreava os primeiros momentos do cigarro e das letras, antes de respirar fundo e seguir para a tortura.
ao almoço sempre foi a confusão total. os turistas e os habituées, o cheiro forte da comida. eu ia sempre para a sala do fundo, era mais calmo. sozinha ou acompanhada, era em modo automático que me aparecia o tentador cheesecake à frente, o café e o cinzeiro no fim. o João é meu vizinho. vive ali no mesmo bairro que eu. nos suores da azáfama, parava sempre um bocadinho ao pé da minha mesa e queixava-se do cansaço, da patroa e contava a última do cãozinho que lhe ofereceram. o João teve uma pneumonia. enviámos-lhe um cartão. contaram que chorou e tudo.
a Sónia chegou depois, muitos meses depois, para substituir a Carla. sempre calada, de rosetas e duplo queixo.
a Ana é a filha da dona, redonda como ela, de enormes olhos castanhos. tem uma filha e um curso de tapeçaria.
a dona, cujo nome nunca consegui fixar, é enorme, jocosa e gulosa, apesar dos diabetes. era um espaço para se estar, que nunca fechava para mim. a salinha do fundo, de toalhas às risquinhas, luzes suaves, assistiu a ataques de fúria, a confissões, a lágrimas irrequietas e risadas altas, a brincadeiras dos empregados com a minha gulodice e os quindins. as mãos trocadas em cima da mesa, os sorrisos e a cabeça encostada à parede. faziam fiado, mandavam a comida para fora em pacotes de alumínio e não tinham multibanco.

hoje receberam-me de olhos turvos de lágrimas, com as vozes desconsoladas e os gestos atabalhoados. o "meu" restaurante vai hoje fechar.
citando o João, o mais triste e choroso de todos, "quando chegar a segunda-feira, o que é que eu faço?"

Comentários

Anónimo disse…
além de tudo acima descrito lembro-me do primeiro dia.
ele: e aqui...?...
ela: pois se calhar...
ele: mas deve ser caro...
ela: que se lixe...

foi uma surpresa.
tipo cantina.
gente simpática.
quase sempre as mesmas caras.
que vais ser de nós todos?
Anónimo disse…
iiiihhhh, pois foi :)
e tens toda a razão, meu querido... que será de todos nós? :(
Anónimo disse…
:(
Anónimo disse…
Já dizia Lavoisier, "Nada se cria, nada se perde, tudo se transforma".

Bonne chance.
Anónimo disse…
que pena! qd encontramos "segundas casas" depois torna-se complicado gerir o seu desaparecimento.
A solução é encontrar outro canto assim tão simpático.
Anónimo disse…
colher: verdade, amiga

R.: transforma, claro. em mais um daqueles restaurantes que por aqui florescem, que fazem jantares a 60 euros por pessoa e almoços a 25... rodízios e o raio que os parta...

pinky: é mesmo isso... segunda casa... que se vai. obviamente que estes pousos vão surgindo ao longo das nossas vidas, mas estúpido seria não lhes dar o devido valor na devida altura... e depois era uma casa que sei que vai ser desvirtuada. neste momento, a dúvida de todo este escritório é "agora onde é que vamos comer?". tinham uma clientela muito específica, que fica agora sem sítio onde ir...
Anónimo disse…
"que há-de ser só nós o sabemos, pondo o fogo e a chuva na voz, repartindo ao vento pedaços, que hão-de ser de nós..."

São os pequenos pedaços de nós que se perdem na chuva...
Anónimo disse…
Caramba, ao ler o texto, fiquei mesmo invadida de uma entimento de tristeza e isto apesar de não conhecer o restaurante em questão...hão de ficar as boas recordações.

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