sexta-feira, 14 de outubro de 2005

espelho

não me encontro. ruído de estática. desfocada por outros olhares que nunca me viram. tento reconhecer-me naquilo que me reflectem. outra vez o preto e branco. outra vez o lado A, lado B.

a matilha ladra furiosa ao longe. a âmbulância passa aguda no estertor do asfalto. estou parada, à espera. passam e não me vêem. mas ladram e apita.

silêncio. silencio.

tento timidamente redescobrir-me. toco-me e sinto as curvas, profundidades e superficialidades, endérmico, epidérmico, pensar, agir, sentir.

há um ponto no peito que me faz chorar. é como um botão. há uma pinta no peito que me faz sorrir. é bonita.

nas horas vagas da noite alheio-me do outro lado. onde não me sentem e mesmo assim pensam de mim. penso de mim assim, duvido. redefinições, remix, adaptações, em loop, inspirado na obra de.

não me encontro em lado nenhum. posso ser só o que dizem as pontas dos meus dedos?

estou algures no meio.

6 impressões digitais:

Daniel Aladiah disse...

Querida Polegar
Estar no meio significa equilíbrio, não ser lado A ou B, não ser preto ou branco... mas também não és O equilíbrio, porque a tua alma balança, não consegues ser neutra, tens opinião... e isso é bom.
Um beijo
Daniel

elisa disse...

Também me oprime este meio da indefinição que tento transformar, nem sempre de forma bem sucedida, em meio de virtude.
Aspiro à coerência mas balanceio.
E tu, não te encontras mas estás lá.
Beijos grandes e bom fim de semana:)!

Anónimo disse...

Minha querida, podes ser o que quiseres! Continuarás a ser linda!

Beijo GRANDE em cada ponta de todos os dedos! B.

Moon Shadow disse...

Os dedos muitas vezes dizem mais do que os olhos, às vezes nao enganam tanto.

Há uma história do Pato Donald onde o cão dos escuteiros segue as pistas por braille. Isto é mais do que prova a afirmação anterior ;)

mood disse...

Lindo. Amei. Escreves cada vez melhor.
E algures no meio, enquanto não nos encontramos, vamos descobrindo uma série de outras coisas cuja desorientação produz coisas tão bonitas como este post.
Beijinho grande

pipetobacco disse...

{ ...

quisera que (eu) fosse um corpo, e não um aeroplano aterrado; por ou com defeito «sim, podia ter sido bem pior, como ter rosto múltiplo...»; por conseguinte gerado sem agremiação; forjado quadrado que fosse cadáver ou busto – quase plano com asas e suporte – revelava-se completo o desejo. e desejo, que fosse, talvez: nascido em despovoado mas voado espírito prisioneiro se fosse querido – a fachada clara, rasgada por poeira flutuante no ar com alento vital; «ter nascido num aeródromo plano e raso (e talvez me iluda mais agora - desmedido e sempre excessivo, mais que destemido, à escuta, preciso (rigoroso) – me engane mais agora nesta (errada e lacónica) interpretação de um sonho, com asas, (motor e trem)) e não ter que criar raízes ou delas depender.» demasiado de perto, quase só em primeiro plano, - olho pela janela do meu apartamento (hangar, se de «um» metal me tratasse, e não corpo fosse liga), ergo a vista tentando ver ou na tentativa de ver o mundo liso, «mais que fácil, mais claro, e de superfície plana», (de olhar oculto, sem arriscar os olhos, vejo o) mundo a que ainda pertenço (nascido; e acordando), desorganizado neste corpo dirigente vou desmantelando o sonho - o aeroplano aterrado (primeiro aquilo que permite o contacto com o solo, depois o impulso) - «e quisera (eu ser; ter) asas em vez de lágrimas ou braços»...

© ricardo biquinha, in “um quase nada”

... }